Publicado por Neto Gaia, às 15: 35

Não ocorreu ao presidente que talvez o eleitor tenha entendido perfeitamente o que ele fez e simplesmente não tenha gostado

Manifestantes fazem ato no Centro do Rio em apoio a Lula no 2º turno — Foto: Pablo PORCIUNCULA / AFP
Lula está convencido de que perdeu o primeiro turno para Flávio Bolsonaro porque sua campanha não conseguiu mostrar aos eleitores tudo o que ele fez para o país. Três dias depois da votação, afirmou que a estratégia de comunicação “não foi suficiente para que uma parcela da sociedade entendesse o que fizemos”. Trata-se de uma autocrítica peculiar. Na visão do presidente, ele acertou, seu governo acertou, seus feitos foram insuperáveis. Lamentavelmente, nem a tática de comunicação, nem a compreensão de parte dos brasileiros ficou à altura desse trabalho. Não ocorreu ao presidente — e decerto nenhum assessor ousou sugerir-lhe — que talvez o eleitor tenha entendido perfeitamente o que Lula fez e simplesmente não tenha gostado. Ou não tenha gostado o suficiente.
No plano da comunicação, o desencontro entre o presidente e os 65,4 milhões de brasileiros que escolheram outros candidatos no último dia 4 vai além de um cardápio de campanha composto de feitos passados e promessas abstratas de defesa da soberania — entre outras coisas, contra uma ingerência americana que na eleição nunca se materializou. Lula ofereceu a um eleitor cansado do presente uma promessa que soou inverossímil: a mudança no futuro. Depois de três mandatos e mais de duas décadas desde sua chegada à Presidência, jurar que agora as coisas serão diferentes deve ter parecido um desaforo para muita gente.
Quanto às mudanças que de fato ocorreram no país, essas o PT tem tido dificuldade de acompanhar. A parcela dos brasileiros que se diz de direita subiu de 28% para 37% entre 2007 e 2023. Os evangélicos passaram a ser mais de um quarto da população, e o agro se consolidou como potência econômica, política e cultural. O fato de os dois segmentos terem dado votações sofríveis para Lula no primeiro turno dá a medida de como a esquerda continua enfiada nas próprias botas.
MAIS SOBRE LULA
Desde que Lula assumiu a Presidência pela primeira vez, em 2003, mudaram também os meios de comunicação, e o presidente, que nem celular carrega, foi só agora convencido a fazer uso das redes sociais. Mudou ainda, e sobretudo, o mundo do trabalho, berço político de Lula, hoje povoado pela figura do empreendedor individual. Apelidar jocosamente esse novo personagem, como fez parte da esquerda, de “CEO de MEI” — ou “diretor de empresa de fundo de quintal”, em tradução livre — parece uma maneira curiosa de pedir votos a alguém.
Lula demorou a falar com esse Brasil do trabalhador por conta própria e, quando tentou, não se saiu sempre bem. Prova disso foi o Move Brasil, programa de R$ 30 bilhões destinado a financiar carros novos para estimados 300 mil taxistas e motoristas de aplicativo. Interessados apareceram aos montes, mas, ao chegar às concessionárias, descobriram que o fato de ser aceitos no cadastro do governo não significava que teriam o financiamento aprovado pelos bancos. O resultado foi que, três meses depois do anúncio do programa, apenas 33 mil motoristas haviam conseguido se beneficiar dele. Boa parte saiu das lojas frustrada.
Segundo Felipe Nunes, CEO da Quaest, deve-se aos empreendedores individuais parte significativa dos 3,4 milhões de votos que Lula perdeu no primeiro turno em relação a 2022. Hoje, institutos de pesquisa e consultorias de risco atribuem ao presidente entre 15% e 30% de chances de ser reeleito no segundo turno.
Como o político brasileiro mais importante desde a redemocratização, Lula já tem lugar garantido na História. Por ora, no entanto, corre o risco de deixar como legado de sua sétima participação numa eleição presidencial uma rejeição capaz de eleger um candidato como Flávio Bolsonaro — e que talvez elegesse qualquer outro, desde que não fosse o próprio Lula.
