Atualizado por Neto Gaia, às 11: 20.
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A cada R$ 10 enviados em emendas nos últimos três anos, R$ 7 foram para o grupo de cidades onde tiveram melhor desempenho no domingo passado

Felipe Carreras (PSB) festeja votos em cidade que liderou ememendas; Motta (Republicanos) multiplica resultado em Várzea após recursos; Vieira (PSDB), líder emSão João de Meriti após R$ 50milhões — Foto: Reprodução/Redes sociais
Há quatro anos, o deputado Felipe Carreras (PSB-PE) obteve 83 votos em Santa Cruz do Capibaribe, município de 98 mil habitantes no Agreste pernambucano. Na ocasião, foi apenas o 33º mais lembrado. No domingo, quando o resultado da eleição à Câmara foi divulgado, o cenário já era outro. Carreras foi o campeão das urnas no município, com 22,3 mil votos. Entre uma eleição e outra, foi ele quem mais destinou emendas individuais para a cidade, com R$ 7,9 milhões, expondo a cada vez maior influência das verbas federais no resultado eleitoral.
Levantamento do GLOBO mostra que a cada R$ 10 enviados em emendas nos últimos três anos, R$ 7 foram para o grupo de municípios em que os deputados tiveram suas maiores votações proporcionais no domingo passado. Os dados indicam que em 90% das cidades em que um único deputado respondeu por mais da metade das emendas — caso de Carreiras —, o parlamentar terminou entre os três candidatos mais votados. Em 70% delas, foi o primeiro colocado.
“O federal campeão em recursos é também o federal campeão de votos da cidade!”, comemorou Carreiras em suas redes sociais. Durante a campanha, o parlamentar também publicou diversos vídeos destacando as obras realizadas na cidade. “Santa Cruz virou um verdadeiro canteiro de obras, e por trás de cada avanço tem uma palavra que faz toda a diferença: parceria”, escreveu o deputado em uma das publicações. Procurado, ele não respondeu.
As emendas estão se tornando cada vez mais um motor importante para a eleição dos deputados e eles estão reforçando cada vez mais o caráter paroquial: ‘Quanto mais destino emenda para determinado reduto, mais eu tenho votos ali, mais eu trabalho pensando nesses redutos e não no bem-estar da população brasileira como um todo’ — afirma o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper. —Isso é uma retroalimentação, um viés bastante perigoso, principalmente quando a gente pensa na representação do conjunto da população.

Exemplos de cidades em que o maior autor de emendas ganhou força nas urnas — Foto: Editoria de Arte
‘Votação é consequência’
Na cidade de Várzea, município de 2,7 mil habitantes no Sertão da Paraíba, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), recebeu 253 votos para deputado federal em 2022. No domingo passado, superou em quatro vezes esse desempenho e foi escolhido por 1.067 eleitores, a maior votação da cidade. O avanço se deu apesar de ter registrado, no total do estado, resultado aquém do obtido na eleição passada. Entre uma eleição e outra, contudo a prefeitura de Várzea foi contemplada com R$ 1,73 milhão em emendas destinadas pelo parlamentar, o equivalente a 43% de todos os recursos desse tipo destinados à localidade no período.
A 68 quilômetros dali, em Condado (PB), o cenário foi parecido. Motta obteve 1.834 votos, o que representou 44,7% do total, o maior índice entre os demais candidatos, e 656 a mais do que há quatro anos. Nesse intervalo, enviou R$ 2,08 milhões em emendas ao município, 80% de tudo o que a prefeitura da cidade recebeu nessa modalidade.
Motta admite que seu desempenho nas urnas é fruto das verbas enviadas nos últimos anos e defende a utilização do instrumento por parlamentares para abastecer seus redutos eleitorais. Em sua gestão à frente da Câmara, o valor reservado no Orçamento para este tipo de recurso bateu recorde, com R$ 50,4 bilhões em 2025 e R$ 49,9 bilhões reservados neste ano.
“A votação é consequência dessa minha atuação e revela a importância das emendas parlamentares. São os parlamentares que conhecem as necessidades de sua região”, afirmou Motta, em nota enviada por sua assessoria.
Mas a relação das emendas com o resultado não se restringiu à Câmara. O deputado Arthur Lira (PP-AL) foi o candidato a senador mais votado em três de cada quatro cidades de Alagoas que receberam emendas de sua autoria nos últimos três anos. Em 52 dos 55 municípios contemplados, terminou entre os dois primeiros colocados.
Em Girau do Ponciano (AL), por exemplo, Lira havia recebido 221 votos e ficado em 14º lugar entre os candidatos a deputado em 2022. Nos três anos seguintes, destinou R$ 3,15 milhões apenas em emendas individuais ao município, o equivalente a 78% de toda a verba do tipo recebida pela cidade. No domingo, foi o mais votado, sendo escolhido por 14,6 mil eleitores.
Em nota, Lira disse que os recursos destinados “têm contribuído para ações de custeio da saúde, apoio à agricultura familiar, pavimentação e construção de rodovias, habitação popular e melhoria da infraestrutura urbana, entre outras”.
Os dados mostram ainda que o desempenho s melhora quanto maior é o peso das suas emendas no orçamento municipal. Nos casos em que um único deputado foi responsável por mais de 75% dos recursos à prefeitura, oito de cada dez foram os candidatos mais votados da localidade.
A relação entre voto e emenda também é observada em cidades maiores. Em Marabá, município de 267 mil habitantes no Pará, o deputado Delegado Caveira (PL-PA) saiu do oitavo lugar, com 4,3 mil votos em 2022, para o primeiro, com 35,4 mil neste ano. Entre as duas eleições, enviou R$ 17,9 milhões em emendas individuais para a cidade, o equivalente a 82% de todos os recursos desse tipo recebidos pelo município. Questionado sobre as verbas, não se manifestou.
Campeão na Baixada
Em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, Luciano Vieira (PSDB-RJ) passou do terceiro para o primeiro lugar entre uma eleição e outra, passando de 10,5 mil para 50,4 mil votos. No período, ele foi o principal autor das emendas individuais destinadas ao município, com R$ 51,1 milhões. O parlamentar não comentou.
Para o deputado Danilo Forte (PP-CE), que relatou a Lei de Diretrizes Orçamentárias em 2024, é natural que deputados sejam mais votados em municípios para os quais enviam mais recursos, pois é onde se fazem mais presentes. Por Dimitrius Dantas e Lauriberto Pompeu
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