Três em cada quatro eleitos do PL não endossam texto golpista e ampliam isolamento de Flávio após fuga para os EUA

By Neto Gaia out31,2026

Concessão: às 7: 35

Levantamento do GLOBO mostra que 117 ignoraram o texto (75%), enquanto 38 compartilharam ou defenderam o conteúdo do documento

Por Luísa Marzull, Letícia Pille e Lauriberto Pompeu (parceria) com Neto Gaia

Flávio Bolsonaro desembarca de um avião após chegar ao Aeroporto Executivo de Opa-Locka, em Miami, Flórida, em 28 de outubro de 2026.
Flávio Bolsonaro desembarca de um avião após chegar ao Aeroporto Executivo de Opa-Locka, em Miami, Flórida, em 28 de outubro de 2026. — Foto: RICARDO ARDUENGO / AFP

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A carta golpista publicada pelo candidato derrotado à Presidência Flávio Bolsonaro foi ignorada por três em cada quatro políticos eleitos pelo PL no pleito deste ano, ampliando o isolamento do senador na direita. Levantamento do GLOBO com os 155 escolhidos para representar o partido no Congresso e nos governos estaduais mostra que 117 ignoraram o texto (75%), enquanto 38 compartilharam ou defenderam o conteúdo do documento. A baixa adesão reflete o movimento concreto de dirigentes partidários, que buscam convencer o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro a largar a tese de que houve fraude nas urnas, já não há qualquer indício de que isso ocorreu. Insistir no tema, segundo essas pessoas, compromete a agenda da oposição e pode desgastar a imagem da legenda, além de provocar possíveis reações institucionais.

Flávio, por sua vez, planeja ir à capital dos Estados Unidos, Washington, na próxima semana. Após uma operação de fuga, o parlamentar desembarcou em Miami, com o apoio de integrantes do governo Donald Trump e Javier Milei, da Argentina. A ideia é iniciar uma interlocução direta com integrantes do governo americano.

Após descumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes, Flávio divulgou uma carta na qual alegou fraude nas urnas e chegou a se declarar o “verdadeiro presidente eleito”.

Posição sobre a carta — Foto: Editoria de Arte
Posição sobre a carta — Foto: Editoria de Arte

Manifestações públicas

O candidato do PL foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva por uma diferença de 4,4 milhões de votos. Logo depois da publicação do documento, pressionado por aliados no Brasil, Flávio alterou o termo para “líder do Brasil”. Ele manteve, porém, os questionamentos ao resultado da disputa presidencial.

O levantamento do GLOBO revela, por outro lado, que 86% dos eleitos pelo partido não reconheceram publicamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição em suas manifestações.

O universo analisado engloba 121 deputados federais, 28 senadores e seis governadores. O GLOBO analisou publicações em redes, entre vídeos e mensagens dos eleitos pelo PL após o segundo turno.

Neste segundo recorte, o levantamento considera de um lado a ausência de manifestações públicas e o questionamento ao resultado das urnas; e do outro o reconhecimento da vitória de Lula. Entre os que não se manifestaram publicamente, portanto, há os que aceitam o resultado das urnas, mas optaram pelo silêncio.

Na direção oposta a de Flávio, um grupo reconheceu publicamente a vitória de Lula. Entre eles estão o senador Marcio Bittar (AC), os deputados André Fernandes (CE), Major Vitor Hugo (GO) e Rosangela Moro (PR).

Ex-líder do governo Bolsonaro na Câmara, Major Vitor Hugo afirmou que a diferença de votos e o reconhecimento do resultado pelas instituições tornavam improvável uma reversão.

“Nós somos 60 milhões de brasileiros que votaram no Flávio, somos uma grande bancada. O TSE e vários chefes de Estado já reconheceram a eleição, não importa o que você ou eu achamos. Foram mais de quatro milhões de votos de diferença e é muito difícil haver uma reversão deste resultado”, declarou.

André Fernandes também descartou alimentar questionamentos sobre as urnas, embora tenha atribuído a derrota à campanha adversária. “O resultado foi esse. Eu não vou aqui falar sobre urna, golpe, não vou falar sobre isso. Porque eu sei que muita gente votou sim no Lula porque acreditou em mentiras, em promessas vazias que não serão cumpridas”, afirmou.

Entre os que endossaram a carta de Flávio estão os senadores Magno Malta (ES) e Jorge Seif (SC), o senador eleito Gustavo Gayer (GO) e os deputados José Medeiros (MT) e Nikolas Ferreira (MG). A adesão de integrantes próximos ao ex-candidato evidencia as dificuldades da direção partidária para afastar a legenda do discurso de contestação.

Uma das manifestações mais enfáticas foi a da deputada Magda Mofatto (GO), que compartilhou o documento e incentivou sua divulgação no Brasil e no exterior. “Essa carta estará nos livros de história e é um relato sincero e puro do momento que vivemos em nosso país”, escreveu.

Gayer sustentou que o resultado seria matematicamente impossível e divulgou um vídeo no qual leu a carta de Flávio. Magno Malta também levantou acusações de fraude e questionou a vitória de Lula. Nikolas, apesar de ter comentado sobre a carta, reconheceu a dificuldade de reverter o resultado eleitoral. “Conhecendo o nosso país, a chance de anular é praticamente nula, então temos que seguir”, afirmou.

Preocupação

Integrantes do PL temem que o senador reforce as acusações de fraude ou faça novas declarações que ampliem o desgaste da legenda. A avaliação é que o discurso adotado por Flávio pode comprometer os esforços para reorganizar a oposição e dificultar a construção de alianças no Congresso, especialmente num momento em que o partido tenta ampliar sua influência nas duas Casas.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, criticou publicamente a manifestação na quinta-feira, após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o dirigente, a carta não foi aprovada pelo partido, que pretende concentrar seus esforços na reorganização da oposição e na atuação no Congresso.

Segundo aliados, um dos principais objetivos de Flávio em viagem à capital americana é conseguir uma reunião com o secretário de Estado, Marco Rubio, que participou das negociações para permitir sua entrada no país. Uma audiência com o próprio Trump também chegou a ser considerada, mas interlocutores do senador avaliam que seria difícil viabilizar a reunião neste momento.

Flávio pretende aproveitar os contatos construídos durante a campanha para ampliar sua articulação política com integrantes do governo republicano. Além de Rubio, aliados mencionam possíveis encontros com representantes do Departamento do Tesouro, comandado por Scott Bessent, e parlamentares republicanos.

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