Atualizado por Neto Gaia, às 7: 50
Inquérito prendeu, no ano passado, os antecessores de Irmão Genival (PSD) e Gilmar Costa (Republicanos) no comando da Casa. Segundo a polícia, esquema envolvia professora assassinada horas após ir à delegacia.
Por g1 Pernambuco

Presidente e vice da Câmara de Ipojuca são alvos de operação que apura desvios de emendas
Atuais presidente e vice-presidente da Câmara Municipal de Ipojuca, no Grande Recife, os vereadores Irmão Genival (PSD) e Gilmar Costa (Republicanos) estão entre os novos alvos da Operação Alvitre, da Polícia Civil, que apura um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares. A suspeita é que foram desviados cerca de R$ 27 milhões (veja vídeo acima).
Além disso, de acordo com a polícia, a professora Simone Marques da Silva, de 46 anos, assassinada horas depois de ir à delegacia para depor sobre o caso em outubro de 2025, seria a responsável por desviar R$ 1,2 milhões pelo esquema, entre os anos de 2017 e 2024. Ela era presidente da Associação Mudart, que funcionaria como uma empresa de fachada.
“Três vereadores encaminharam emendas parlamentares para essa associação. Esses valores de alguma forma podem ter voltado para esses vereadores. Então todos os vereadores que destinaram verbas para essa associação são investigados”, afirmou o delegado Ney Luiz Rodrigues, em entrevista coletiva nesta quinta (3).
A 3ª fase da operação foi deflagrada nesta quinta-feira (3) e é um desdobramento da investigação iniciada no ano passado, que resultou na prisão do então presidente e vice da Casa, Flávio do Cartório (PSD) e Professor Eduardo (PSD). Eles deixaram os cargos após a ação policial, realizada em novembro de 2025.
Segundo a Polícia Civil, foram 13 mandados de busca e apreensão em Ipojuca e nas cidades do Cabo de Santo Agostinho e de Paulista, também na Região Metropolitana. Ninguém foi preso nesta etapa das investigações. A Justiça determinou também o sequestro de bens e o bloqueio de ativos financeiros.
Um dos mandados de busca e apreensão foi cumprido no gabinete do vereador Gilmar Costa. Conforme as investigações, uma funcionária fantasma, que não teve o nome divulgado, teria movimentado R$ 16 milhões a partir do gabinete do vereador. O g1 tenta contato com as defesas dos parlamentares e da Associação Mudart.
O g1 entrou em contato com a Polícia Civil para saber o que foi apreendido e quem são os alvos dos mandados cumpridos e dos bens bloqueados, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.

Foto: Reprodução/TV Globo
Professora assassinada
Segundo o delegado de Porto de Galinhas, Ney Luiz Rodrigues, as investigações avançaram depois do assassinato da professora Simone Marques da Silva. Conforme as apurações, ela era presidente da Associação Mudart, uma empresa de fachada, que recebia o dinheiro de emendas parlamentares.
Ela foi morta a tiros poucos dias após a deflagração da 1ª fase da Operação Alvitre, em outubro de 2025. Poucas horas antes do crime, Simone havia ido à delegacia de Porto de Galinhas para depor no inquérito, mas não chegou a ser ouvida, porque outro procedimento estava sendo realizado no local. O depoimento, então, foi remarcado para o dia seguinte.
“A gente verificou que uma das investigadas poderia ter um vínculo com Simone. Intimei Simone para depor na delegacia. Em razão de outro compromisso, acabei não conseguindo comparecer. Pedi que ela voltasse no dia seguinte, mas, nesse meio-tempo, acabou sendo morta. As investigações acabaram que ela também participava do esquema criminoso. […] Parte dos recursos voltava para ela, para dois advogados, uma contadora e uma funcionária fantasma que trabalhava no gabinete do vereador (Gilmar Costa)”, afirmou o delegado Ney Luiz Rodrigues.
A Associação Cultural Social e Recreativa Mudart foi criada como uma entidade privada sem fins lucrativos sediada em Ipojuca. De acordo com o Ministério da Fazenda, a instituição foi fundada em 2012 e continua em funcionamento.
De acordo com a Polícia Civil, dois projetos da associação, conhecidos como “Sopro de Esperança” e “Buscando Talentos” somaram R$ 680 mil em repasses da Câmara de Vereadores de Ipojuca. Segundo os investigadores, a instituição tinha uma estrutura incompatível com o que deveria ser desempenhado.
A Polícia Civil revelou fotos da sede de duas das empresas citadas na investigação. Além da Associação MUDART, que recebeu mais de R$ 680 mil dos vereadores, houve a M. A. DA SILVA FESTAS, que recebeu R$ 480 mil. As imagens mostram que as sedes das duas empresas são residências simples, o que apontaria uma incompatibilidade com os valores investidos.
O delegado Ney Luiz Rodrigues disse também que o repasse dos valores foi feito após uma reunião entre os vereadores envolvidos e um ex-secretário municipal, cujo nome não foi revelado.
Procurada, a prefeitura de Ipojuca afirmou que o secretário citado pelo delegado atuou na gestão da ex-prefeita Celia Sales (PSD). O g1 entrou em contato com a ex-prefeita de Ipojuca, que permaneceu à frente da gestão municipal no período de 2017 a 2024, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
