Fundos para empresas em crise já somam R$ 17 bi e superam recursos para negócios em expansão

By Neto Gaia set21,2026

É a primeira vez que ocorre essa inversão. Reflexo do cenário de juros altos por muito tempo e onda de recuperações judiciais e extrajudiciais

RJ – Cássia Almeida (para), Neto Gaia

Polo Petroquímico da Braskem no Grande ABC, em São Paulo: em recuperação extrajudicial, companhia é uma das que conta com recursos de fundos de special situations
Polo Petroquímico da Braskem no Grande ABC, em São Paulo: em recuperação extrajudicial, companhia é uma das que conta com recursos de fundos de special situations — Foto: Reprodução / Braskem

No Brasil, há mais dinheiro disponível para investir em fundos voltados para empresas em crise do que para expandir negócios em ascensão. Chamados de special situations, esses fundos tinham R$ 17,4 bilhões em junho deste ano para aportar em companhias em dificuldade contra R$ 14,6 bilhões dos fundos de private equity, que investem para fazer as empresas crescerem. Essa inversão aconteceu em 2026, coincidindo com o ciclo longo de juros altos, que estão acima de 10% desde fevereiro de 2022, e uma onda de recuperações judiciais e extrajudiciais.

Estudo da gestora Spectra constatou que o volume disponível dos fundos de special situations cresceu quase nove vezes desde 2016. São investidores em busca de oportunidade de investimento. Na outra ponta, a quantidade de recursos livres para aplicação dos fundos especializados na expansão de empresas, com objetivo de lançar capital na Bolsa ou vendê-las, caiu 46,1% no mesmo período.

O segmento de special situations começou a tomar corpo no Brasil a partir de 2015 e 2016, dois anos de recessão forte e Operação Lava-Jato, investigação que levou grandes construtoras à recuperação judicial.

Nos últimos anos, grupos como Casas BahiaAmericanas e Pão de Açúcar, além de empresas como Braskem e Raízen, engordaram os números de empresas em dificuldade que tiveram de pedir proteção contra credores. Nesses grupos, gestoras de special situation têm forte atuação.

— É uma situação diferente de países mais maduros como os EUA e os da Europa, onde os fundos de private são maiores. No Brasil, special situation começa a amadurecer. Um dos fatores foi o aumento de oportunidades. A situação econômica, com juros altos, fez as empresas reestruturarem dívidas e encontrarem formas mais criativas de financiamento — afirma Frederico Wiesel, sócio da Spectra.

Guilherme Setoguti, presidente da Associação Brasileira de Special Situations e Litigation Finance, explica que o mercado de compra de dívidas também cresce. Se a gestora perceber litígios com boas chances de êxito, entra financiando advogados e perícia e fica com um percentual quando a causa for ganha, diz Setoguti:

— É um país com insegurança jurídica e muitas leis; há espaço para quem conhece esse mercado muito judicializado.

Esses fundos dão no mínimo de 25% a 30% de retorno, segundo Setoguti. Eles crescem porque as categorias tradicionais de investimento não têm conseguido assegurar uma rentabilidade satisfatória. A retirada líquida nos fundos de multimercado, que investem em títulos do governo e em ações, foi de R$ 670 bilhões entre 2022 e julho de 2026.

— Os fundos multimercado vêm apanhando nos últimos anos. Os de private equity também. Eles não conseguem oferecer retorno elevado, com a Taxa Selic (em 13,75% ao ano). É esse conjunto de fatores que ajuda o mercado de special situation a crescer.

Riscos elevados

À frente da recuperação extrajudicial da Braskem e se preparando para tentar entrar no processo da Raízen, a gestora IG4 Capital foca em reestruturação de grandes empresas. Há dez anos no mercado, opera para ter o controle da companhia e fazer os ajustes necessários. Hélio Novaes, sócio e CEO da gestora, diz que o Brasil é “um playground de special situation”, diante de um crescimento econômico que parece um “voo de galinha”.

— O Brasil é uma constante special situation. Aqui, o crescimento econômico é por um prazo geralmente curto e logo depois dá uma invertida. É um playground de special situations porque não tem empresa imune a uma crise de qualquer natureza, reputacional, financeira, de exposição a determinadas situações.

A IG4 busca empresas que passam por problemas localizados, mas são bons negócios, passando por uma situação momentânea de estresse financeiro ou operacional.

A gestora fica entre cinco e seis anos no negócio. Os primeiros anos são para fazer o ajuste mais pesado. Quando começam a aparecer sinais de melhoria, outros investidores que resistiam a alocar recursos no período de recuperação (turnaround) começam a se aproximar, explica. O retorno desses aportes vem em múltiplos do que foi investido.

Para evitar perdas quando os negócios não se recuperam, a gestora atua em setores que tenham ativos reais. Assim, na hora em que o negócio começar a dar sinais que não vai dar certo, é possível estancar a perda com a venda dos bens.

— Nessa circunstância, você não vai devolver para o investidor tudo aquilo que esperava de rentabilidade, mas pelo menos vai proteger o capital de uma maneira que consiga ter uma recuperação do investimento feito —diz Novaes.

— Nessa circunstância, você não vai devolver para o investidor tudo aquilo que esperava de rentabilidade, mas pelo menos vai proteger o capital de uma maneira que consiga ter uma recuperação do investimento feito — diz Novaes.

Segundo Otávio França, sócio da Exon Partners, há um bloco de empresas de setores intensivos em capital como Braskem, Unigel e as de varejo que trabalham com margens baixas, que foram os dois grupos mais atingidos pela combinação de juros altos e economia andando de lado. Em paralelo, as gestoras grandes e médias começaram a se posicionar diante das oportunidades. A atuação começa até antes da busca oficial por reestruturação, comprando bons ativos dessas empresas, explica.

Ele diz que além das grandes operadoras nesse mercado, como BTG, Itaú, Santander, Bradesco, Farallon, IG4 Capital, há um segundo nível de casas que operam em crédito na faixa entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões.

—Nesse mercado, há compra de debêntures com grande deságio, ativos judiciais como precatórios, injeção de capital por meio do DIP (Debtor-in-Possession, no qual o credor tem preferência no pagamento).

Luiza Oswald, sócia da Leto Capital e head de special situations da gestora, diz que se pode errar ao precificar um ativo. Quem investe em precatórios, por exemplo, levou um tombo quando, em 2021, o governo federal limitou o pagamento dessa despesa ao valor corrigido de 2016, estabelecendo um teto para a quitação nos anos seguintes. Quem quisesse receber antes teria que aceitar desconto de 40% ou esperar:

— Quem investiu em precatórios de São Paulo e do Rio tomou um tombo com a 136 (Emenda Constitucional que limitou o pagamento de precatórios dos estados a 1,5% da receita corrente líquida, ante 4%) no ano passado.

Mas é um ativo com retorno considerável. A gestora de Luiza comprou no fim de 2024 R$ 4 milhões em precatórios do Ceará. Dezoito meses depois, recebeu R$ 12 milhões. Em outro exemplo, ela lembra que as debêntures da Braskem, em recuperação extrajudicial, foram negociadas a 36% do valor de face.

Na outra ponta, os recursos disponíveis em private equity vão em direção oposta. Priscila Rodrigues, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), diz que investidores ficam mais seletivos com juros altos. Avaliam o risco e o retorno das aplicações e veem que aportar em títulos públicos, com retorno que protege contra a inflação ou indexado à Selic, acaba sendo uma opção mais segura que investir em uma empresa, por um prazo longo e com mais risco:

— Na visão risco-retorno, dentro das estratégias de investimento, passou a ser uma opção mais arriscada do que com juro um pouco menor. O estrangeiro ainda tem o desafio do câmbio. Muitos foram machucados com a volatilidade do dólar.

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