Bancada pró-impeachment no Senado reúne 25 senadores que são ou já foram alvos no STF

By Neto Gaia out11,2026

Atualizado por netogaia.com.br, às 9: 30

Levantamento do Estadão mostra que mais da metade dos 49 senadores favoráveis ao afastamento de ministros já foi investigada, respondeu a ações penais ou sofreu medidas autorizadas pela Corte; grupo está a cinco votos dos 54 necessários para um impeachment; todos os parlamentares citados foram procurados pelo Estadão

Por Hugo Henud, Gabriel Serpa e Lucas Allabi (para), Neto Gaia

Senado em 2027: PL cresce, esquerda encolhe e impeachment de ministros do STF pode avançar. Estadão Explica fala sobre os reeleitos, os novos rostos e quem ficou sem assento na Casa. Crédito: Estadão

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra vocêAbrir o resumo

Mais da metade dos senadores que compõem ou devem integrar a bancada favorável ao impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) é ou já foi alvo de investigações, medidas investigativas ou ações penais na própria Corte. Todos os parlamentares citados foram procurados pela reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações.Bancada pró-impeachment no Senado reúne 25 senadores que são ou já foram alvos no STF

O levantamento do Estadão identificou que, entre os 49 senadores eleitos ou em exercício que já manifestaram publicamente apoio ao impeachment de ministros do STF, 25 foram investigados, responderam a ações penais ou sofreram medidas investigativas autorizadas pela própria Corte. Entram nessa conta casos arquivados, absolvições e investigações posteriormente remetidas a outras instâncias, desde que o STF tenha autorizado medidas investigativas contra os parlamentares antes da transferência.

Todos os citados da reportagem foram procurados, mas nenhum deles se manifestou.

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A bancada favorável ao impeachment ganhou força nas eleições de 2026. Entre os 31 senadores eleitos que se declararam favoráveis ao afastamento de ao menos um integrante da Corte, 18 têm histórico de investigações, ações penais ou medidas investigativas autorizadas pelo STF.

Os parlamentares argumentam que ministros não estão acima da lei e devem responder por eventuais crimes de responsabilidade. O grupo defende ainda que o Senado exerça sua prerrogativa constitucional de processar e julgar integrantes do tribunal, como forma de preservar o equilíbrio entre os Poderes e recuperar a credibilidade do Supremo.

Entre os eleitos que defendem o impeachment está Carlos Jordy (PL-RJ), que foi alvo de duas operações da Polícia Federal autorizadas por ministros do STF. Em janeiro de 2024, Alexandre de Moraes determinou buscas contra o então deputado na Operação Lesa Pátria, que investigava suspeitas de envolvimento na organização de atos antidemocráticos após as eleições de 2022.

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Quase dois anos depois, em dezembro de 2025, Jordy voltou a ser alvo de buscas, desta vez autorizadas por Flávio Dino, em uma investigação sobre suspeitas de desvio de recursos da cota parlamentar. Nas duas ocasiões, o parlamentar negou irregularidades e acusou as operações de terem caráter intimidatório.

Outro nome da bancada atingido por decisões do Supremo é o ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes (União Brasil). Em agosto de 2026, Dino autorizou uma operação da Polícia Federal para investigar suspeitas de desvio de R$ 308 milhões em um acordo firmado entre o governo estadual e uma empresa de telefonia privada. Mendes teve o passaporte recolhido e foi proibido de manter contato com outros investigados. Na ocasião, negou irregularidades.

Em Goiás, o senador eleito Gustavo Gayer (PL) também teve seu nome envolvido em uma investigação conduzida sob supervisão de Moraes. Em outubro de 2024, o ministro autorizou uma operação da Polícia Federal para apurar suspeitas de desvio de recursos da cota parlamentar.

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A investigação aponta que dinheiro público teria sido utilizado para custear atividades particulares ligadas ao deputado. Em dezembro de 2025, Gayer foi indiciado pela PF por crimes como peculato, associação criminosa e falsidade ideológica. Parte do processo permanece sob sigilo. O parlamentar negou irregularidades e atribuiu o indiciamento à sua defesa do impeachment de ministros do Supremo.

O histórico judicial de parte da bancada também inclui investigações que deixaram o Supremo, mas nas quais ministros da Corte chegaram a autorizar medidas contra os parlamentares.

Eleito senador por Santa Catarina, Carlos Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e irmão do presidenciável Flávio Bolsonaro, foi apontado pela Polícia Federal como um dos possíveis articuladores do chamado “gabinete do ódio”, grupo suspeito de disseminar notícias falsas e promover ataques a autoridades e instituições durante o governo de seu pai. A atuação do grupo foi apurada no inquérito das fake news, que permanece sob sigilo e esteve sob a condução de Moraes até setembro deste ano, quando Edson Fachin, presidente do STF, assumiu sua relatoria.

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Carlos também foi alvo de buscas autorizadas por Moraes em janeiro de 2024, quando a PF apreendeu seu celular na investigação sobre o uso ilegal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro. Indiciado em junho de 2025, foi apontado pelos investigadores como integrante do núcleo político do esquema. Em julho deste ano, Moraes determinou a remessa dessa investigação à primeira instância da Justiça Federal, preservando as provas e diligências já realizadas.

Há ainda parlamentares que sofreram medidas investigativas, mas tiveram os procedimentos posteriormente arquivados. É o caso das senadoras eleitas Bia Kicis (PL-DF) e Caroline de Toni (PL-SC), que tiveram os sigilos bancários quebrados por determinação de Moraes em maio de 2020, no inquérito que apurava a organização e o financiamento de atos antidemocráticos. Em julho de 2021, o ministro arquivou a investigação a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Bia Kicis voltou a prestar esclarecimentos ao Supremo em 2026, desta vez por determinação de Dino, sobre a destinação de R$ 150 mil em emendas parlamentares a uma série documental ligada à produtora do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. A parlamentar afirmou que os recursos não foram executados e negou qualquer financiamento ao filme. O pedido ocorreu no âmbito de uma ação sobre emendas e não significou, por si só, a abertura de uma investigação criminal contra ela.

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O episódio envolvendo Bia Kicis mostra outra frente de tensão entre o Congresso e o Supremo que deve se estender a 2027: a fiscalização e as investigações sobre suspeitas de irregularidades na destinação de emendas. Sob a relatoria de Flávio Dino, o STF ampliou as exigências de transparência e rastreabilidade dos recursos, em decisões que provocaram atritos com congressistas.

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O alcance das investigações, porém, vai além dos casos conhecidos. Em 2025, Dino mencionou a existência de mais de 80 inquéritos no STF sobre suspeitas de irregularidades em emendas parlamentares. Na mesma época, Gilmar Mendes também confirmou publicamente a dimensão das apurações, estimando entre 60 e 80 procedimentos.

Distribuídas entre diferentes ministros, muitas dessas investigações tramitam sob sigilo, o que dificulta saber quem está sendo investigado e se há outros integrantes da futura bancada pró-impeachment entre os envolvidos.

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A relação entre as instituições se torna ainda mais delicada porque, enquanto o Supremo investiga parlamentares, cabe ao Senado processar e julgar os próprios ministros da Corte em casos de impeachment.

Para Luiz Gomes Esteves, professor de Direito do Insper, a nova composição do Senado abre caminhos de reação ao Supremo que vão além do impeachment de ministros e incluem mudanças nas próprias atribuições da Corte.

“De um lado, os senadores podem mobilizar processos de impeachment para reagir a eventuais investigações iniciadas pelo STF. De outro, é possível que os senadores simplesmente alterem a Constituição para retirar das mãos do STF a competência criminal”, afirma.

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Na avaliação do professor, a concentração de poderes nas mãos de relatores como Moraes e Dino também contribuiu para personalizar os embates entre parlamentares e ministros. Para ele, essa dinâmica dificulta distinguir o exercício legítimo da fiscalização pelo Senado de eventuais tentativas de retaliação a decisões judiciais.

Para Ana Laura Barbosa, professora de Direito do Insper e da FGV-SP, os riscos à independência do Supremo não dependem, porém, da concretização de um impeachment. A própria ameaça de afastamento de ministros pode funcionar como instrumento de pressão sobre a Corte.

“A ameaça de retaliações pode servir não para que elas sejam diretamente concretizadas, mas sim como ferramenta para forçar uma cooptação ou captura”, afirma. Para a professora, esse tipo de pressão pode levar ministros a deixar de decidir conforme seu entendimento jurídico para evitar represálias, comprometendo a independência judicial mesmo sem a concretização de um impeachment.

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Ana Laura ressalta, contudo, que o histórico judicial dos parlamentares não é suficiente para concluir que eventuais pedidos de impeachment tenham caráter retaliatório. Para ela, o critério para avaliar a legitimidade do afastamento deve ser a existência de crime de responsabilidade, e não a insatisfação dos congressistas com decisões judiciais. “Não dá pra usar impeachment para punir juízes pelas decisões que proferiram ou por especulações”, afirma.

Os senadores eleitos favoráveis ao impeachment apontaram Moraes como um dos principais alvos. Parte deles critica decisões do ministro que considera abusivas, enquanto outros citam as suspeitas envolvendo sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o contrato firmado entre a instituição financeira e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado. Os episódios são usados pelos parlamentares para defender a abertura de investigações e, em alguns casos, o afastamento ou impeachment de Moraes.

Apesar do avanço nas urnas, a bancada pró-impeachment ainda não reúne os 54 votos exigidos pela Constituição para afastar um ministro do Supremo. O grupo soma 49 dos 81 senadores, cinco a menos do que o necessário para alcançar os dois terços da Casa.

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