Carbono Oculto: Fintech movimentou R$ 17,7 bi só em operações suspeitas do crime organizado

By Neto Gaia ago28,2025

Foto: Werther Santana/Estadão | Parceria registrada: Jornal Estado ‘com’ Neto Gaia.

Dados do Coaf usados pelo Gaeco mostram que instituição de pagamento tinha como principais clientes empresas da organização criminosa e, segundo a Receita, movimentou R$ 46 bi em 5 anos; Corretora Reag é também alvo da ação

Por Marcelo Godoy | Para Neto Gaia

28/08/2025 | 07h35

Atualização: 28/08/2025 | 08h 10.

Tudo começou com máquinas de pagamento encontradas em uma casa de apostas em Santos. Elas estavam em nome de postos de gasolina ligados a uma grande distribuidora. Os recursos que passavam nas máquinas eram depositados em uma instituição de pagamento. Pagamentos em dinheiro vivo mostravam um fluxo financeiro incomum. Em pouco tempo os investigadores descobriam aquilo que é visto como um dos pontos centrais na organização criminosa investigada pela Operação Carbono Oculto e que capturou parte do mercado nacional de combustíveis: a atuação do BK Bank.

Fundado como uma microempresa em 2012, com um capital de R$ 15 mil, sua sede ficava em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Chamava-se BK Instituição de Pagamento. Em 2019, mudou se nome para Berlim Finance e passou a ter um capital de R$ 2 milhões e novos sócios. No ano seguinte, a empresa foi transferida para Campinas, cidade onde se tornaria, nos anos seguintes, uma espécie de hub das fintechs do crime organizado, como demonstrou a Operação Tai Pan, da Polícia Federal.

A transformação da BK em fintech ocorreu em 2022. Em 28 de maio de 2024, ela ampliou seu capital para R$ 9 milhões e se cadastrou no Banco Central. Em pouco tempo, movimentaria R$ 17,75 bilhões em operações consideradas suspeitas pelo Conselho de Controle das Atividades Financeiras (COAF), dos quais R$ 2,22 bilhões da distribuidora de combustíveis Aster, principal cliente da fintech. De acordo com a Receita Federal, as movimentações totais da fintech entre 2020 e 2024 somaram R$ 46 bilhões.

Ainda de acordo com a Receita, a “utilização de fintechs pelo crime organizado objetiva aproveitar brechas na regulação desse tipo de instituição. Essas brechas impedem o rastreamento do fluxo dos recursos e a identificação, pelos órgãos de controle e de fiscalização, dos valores movimentados por cada um dos clientes da fintech de forma isolada”.

De propriedade dos empresário Mohamad Hussein Mourad, ligado ao empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, a Aster teve sua atuação suspensa pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) em 2024. Mourad era dono de uma rede de postos de combustível que estariam em nome de laranjas. Ele seria ligado ainda à Copape, uma formuladora de combustíveis.

De acordo com os investigadores, “a instituição de pagamento BK foi amplamente usada pela organização criminosa para a movimentação dos seus recursos financeiros”. “Identifica-se esse canal de fluxo financeiro para ocultar e dissimular a origem e o destino de valores”.

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A BK usaria o que se costuma chamar contas bolsão (contas mantidas pelas fintechs em bancos sem identificar os verdadeiros donos do dinheiro) para blindar o patrimônio dos criminosos contra os sistemas de controle de lavagem de dinheiro do Banco Central e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Atualmente, ela teria sedes em Barueri, Ribeirão preto em Campinas.

A expansão aconteceu ao mesmo tempo em que Mourad ampliou seus negócios para a região por meio da aquisição de quatro usinas sucroalcooleiras, além de ele se associar a outras duas usinas. Ele ainda teria movimentado R$ 311 milhões de outra instituição de pagamento investigada pelos promotores, o Bankrows. Já a Copape fez passar pelo BK um total de R$ 247 milhões. Outros R$ 435 milhões foram movimentados por fundos e empresas ligadas a Mourad.

Começo da operação e os cinco núcleos

A investigação que levou ao BK começou com maquininhas de pagamento usadas em Santos em casas de apostas clandestinas. Dali, chegou-se aos postos de gasolina em que elas estavam registradas e, por meio dos postos, ao BK Bank. Identificou-se cinco núcleos que atuariam na organização criminosa: o Núcleo Aster/Copape, o Núcleo Paraná; o Núcleo Yang; o Núcleo Alemão, comandado por José Carlos Gonçalves, operador de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e o Núcleo Zaraboxter, comandado pela família Cepeda, ligado a Alemão.

“Embora cada núcleo tenha uma pessoa ou um grupo de pessoas exercendo a função de comando e tenham a operação centralizada na atividade de contadores, verificou-se relacionamentos, mais ou menos próximos, entre todos os núcleos, desde logo destacando a centralização da movimentação de valores de todos esses núcleos na empresa Bk Bank” afirmaram os promotores.

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