Como é o interior da maior prisão do Afeganistão, que abriga 2 mil presos do Talebã

‘Tornei-me uma pessoa tão frustrada. Nunca achei que fosse cometer um atentado suicida, mas agora, juro por Deus que vou’, diz um dos detentos à BBC; diversos deles receberão a liberdade em breve.

Fonte: G1 Mundo | Ao portal Neto Gaia – Às 11h 31

Alerta: Esta reportagem contém descrições que alguns leitores podem achar perturbadoras

A prisão Pul-e-Charkhi, na periferia de Cabul, é cercada por paredes de pedra cinzas e arame farpado, monitorada por torres de vigilância e protegida por gigantes portões de aço. Dos 10 mil presos, um quinto pertence ao Talebã —o grupo insurgente islâmico linha dura do Afeganistão.

O preso Mawlawi Fazel Bari, um dos membros do Talebã no local, diz que não nasceu lutando, mas depois de cinco anos na prisão, ele nunca se sentiu mais pronto para morrer.

“Tornei-me uma pessoa tão frustrada. Nunca achei que fosse cometer um atentado suicida, mas agora, juro por Deus que vou”, ele diz.

Por enquanto, Bari permanecerá encarcerado na prisão de segurança máxima. Mas essa prisão é uma entre várias pelo país que está soltando prisioneiros do Talebã em números sem precedentes, como parte de um gesto de cooperação por parte de um governo que se fechou para negociações de paz.

O objetivo a longo prazo do Talebã é restaurar o Emirado Islâmico no Afeganistão —seu sistema de governo enquanto estiveram no poder entre 1996 e 2001 — que introduziu a sharia, ou lei islâmica, e um regime em que mulheres eram banidas da vida pública e punições incluíam apedrejamentos e amputações. Não está claro como um regime do Talebã funcionaria.

Centenas de milhares de pessoas morreram no Afeganistão desde que forças americanas derrubaram o governo do Talebã em 2001, incluindo dezenas de milhares de civis.

A reportagem da BBC entrou em Pul-e-Charkhi, que é a maior prisão do Afeganistão, para entender: quem são esses jihadistas, e que futuro enxergam para o Ageganistão?

Durante a visita da BBC, os prisioneiros do Talebã se abriram sobre suas motivações e lamentos, mas foram relutantes em responder sobre atividades específicas. Sabemos, no entanto, que Mawlawi Fazel Bari se juntou ao Talebã 15 anos atrás e se tornou comandante do grupo na província de Helmand, lutando contra forças afegãs e internacionais naquela região.

A pequena cela de Bari é lotada de homens, todos membros do Talebã. Há filas para o corredor — alguns homens estão abaixados em passagens, outro estão olhando de suas treliches. Um preso mais velho está sentado no chão, rezando silenciosamente com suas contas de oração.

O chão é um mar de almofadas e tapetes vermelhos, e sobre quatro paredes há um mosaico de pôsteres mostrando imagens de lugares sagrados para o islã, como Meca e Medina, além de cenas idílicas genéricas, como cachoeiras, buquês de flores, cones de sorvete.

Os presos decoraram sua cela de maneira para que ela evoque uma visão do paraíso, refletindo sua crença fundamental de que se forem mortos em ação, vão direto para o céu.

Próximo às paredes, há estantes improvisadas com livros pesados de literatura islâmica e o Corão.

Um poster de Medina em uma cela na prisão Pul-e-Charkhi — Foto: BBC

Um poster de Medina em uma cela na prisão Pul-e-Charkhi — Foto: BBC

Bari começa a pregar e todos os olhos se viram para ele. Ele costumava ser um acadêmico, e por isso seus colegas presos o têm em alta conta.

“Eu te digo isso”, ele fala, “enquanto houver um soldado estrangeiro no Afeganistão, a paz não é possível.”

O Talebã afegão foi acusado de dar um santuário a Osama Bin Laden e ao grupo al-Qaeda — culpado pelos ataques extremistas coordenados nos Estados Unidos em setembro de 2001. Depois de 19 anos de guerra entre o Talebã e as forças americanas, o conflito no Afeganistão agora é o mais longo da história dos EUA.

O presidente americano, Donald Trump, parecia próximo de fechar um acordo com o Talebã em setembro. Mas ele cancelou as negociações de paz repentinamente, depois que os combatentes admitiram responsabilidade por uma explosão em Cabul que matou 12 pessoas, incluindo um soldado americano. Na última semana, Trump anunciou ter feito uma visita ao país asiático para retomar os diálogos de paz.

Os EUA dizem que têm ao menos 13 mil tropas no país. Como parte de um acordo com o Talebã — agora fora da mesa de negociações, depois que as conversas cessaram — o país prometeu reduzi-las para 8.600 dentro dos primeiros cinco meses do acordo. Durante sua campanha em 2016, Trump prometeu que acaria com a guerra dos EUA no Afeganistão.


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